Frei Ermida, um projeto de Deus

Depois de muitos anos atuando na Paróquia de Nossa Senhora do Bom Sucesso, Frei José Luiz Ermida decide passar as férias no seu país de origem e não volta mais. Pode haver inúmeras justificativas para o ocorrido, mas somente Deus é quem sabe o que se passou no coração dele. A crônica de hoje se inspirará na vida deste sacerdote, sem, contudo, revelar uma biografia, mas aprender com a sua humildade e dedicação.

Dentre todos os votos a que os padres estão submetidos, Frei Ermida tirava de letra o quesito humildade. Sempre se revelou despojado e isto conquistava a todos. Era um bom pregador, embora exigisse muita atenção dos ouvintes, por causa do seu carregado sotaque espanhol. Amava os pobres profundamente. A sua preferência era sempre celebrar para as pessoas mais simples mesmo nunca recusando trabalhar no Reino de Deus em qualquer lugar que fosse.

Pode ser exagero, mas aqui em Bom Sucesso ele vivia dois santuários, um o terço dos homens que se reúnem todas as segundas-feiras na Capela de São José, outro a comunidade de Machados, Figueiras e adjacências. Ele era um guia espiritual, um verdadeiro conselheiro que não desamparava o seu povo.

Introduzia sempre o terço das segundas com a santa missa e concluía com a benção final seguida de uma mensagem. Era mais assíduo que qualquer participante. Se por acaso faltasse, o motivo deveria ser muito justo, isto porque a responsabilidade era sua palavra de ordem.

Para os paroquianos da comunidade de Machados, Figueiras e Coqueiros, era Deus no Céu e Frei Ermida na terra. E o sentimento era recíproco. Se a missa acontecesse à noite, desde o final da tarde já se dirigia para a comunidade com o intuito de fazer as suas visitas. Sentindo-se em casa, sentava no rabo do fogão de lenha e por conta própria abria a garrafa térmica à procura de café. Pensa que após a missa ele ia embora? De jeito nenhum, se juntava ao pessoal e haja assunto!!!! O seu lugar preferido voltava a ser a parte baixa do fogão de lenha! Quem testemunha o fato são o Toninho com a Maria do Carmo, antigos moradores da Figueira que atualmente mora na cidade, mas não perdem esta preciosa lembrança.

Certa vez a comunidade recebeu a visita do bispo da Diocese de Oliveira, Dom Miguel, outra figuraça!!!! Com o seu jeito carismático de ser, sentiu-se também em casa junto com aquele pessoal bacana. Acabando a missa, D. Miguel também se dirige à casa do Toninho para tomar um cafezinho e ao invés de sentar na cadeira, prefere o lugarzinho do Frei Ermida na rabeira do fogão. Quando o Frei chegou, dirigindo-se ao seu lugar de sempre, depara com a eminência ocupando o seu espaço. Dom Miguel dá aquela risada sinistra puxando do fundo da garganta e olha pro frei que corresponde amigavelmente: “Non ter problema, non ter problema!!!”.

Por diversas vezes a paróquia cogitou vender o fusquinha, sua principal condução, para adquirir um veículo novo. A tentativa foi em vão, o fusca tinha a sua cara, tal como o seu chapéu. Com este carro ele fazia o seu trabalho de evangelização voltando tarde da noite e com toda certeza carregado de anjos ajudando-o atravessar mata-burros e caminhos imprevisíveis.

No dia em que passou mal, vítima de um infarto, dirigiu uma média 30 km até chegar a cidade e a melhor maneira de entender esta proeza, foi exatamente a sua intimidade com Deus que não o desamparou. O seu mal foi proveniente do vicio do cigarro que o acompanhou durante boa parte da sua vida. Nunca fez muita questão de ganhar dinheiro extra, só o suficiente para manter o seu desejo de fumar. No entanto o destino lhe deu uma rasteira forçando-o a encerrar o vício.  O método utilizado foi fazê-lo ver a morte de perto. O susto foi tão grande que ele não titubeou, se tratou e foi determinante, afinal de contas as suas ovelhas ainda precisavam dele.

Ir embora sorrateiramente foi uma atitude não desejada pelos seus amigos, mas o que nunca almejava era o que chamamos de homenagens. “Convém que Cristo cresça e que eu diminua”, já dizia São Paulo. No momento está morando na Espanha, em uma comunidade para idosos. Segundo relatos, ele é o mais novo da turma. Ainda hoje sente muita saudade do seu povo e dos costumes mineiros, principalmente comer arroz com feijão. Voltar a esta terra do coração pode não ser tão fácil assim, pelo menos fica a lembrança e a satisfação do dever cumprido.

Desta forma esta crônica chega ao seu final apresentando a seguinte lição: “Ninguém está neste mundo por acaso, Deus tem um projeto de vida para cada um dos seus filhos e a meta maior é salvar-se e proporcionar a salvação”.

Deixe uma resposta