FRATERNIDADE E JUSTIÇA SOCIAL

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Crônica de Elias Daniel de Oliveira (07/02/2016)

Depois de muita festa carregada de muita alegria, o povo cristão é convidado a celebrar o período quaresmal. A Igreja católica inclusive propõe todos os anos um tema para ser refletido e intensificar ainda o clima de penitência necessário à sua santificação. Normalmente estes assuntos são embasados no contexto social, aquilo que de fato o povo tá vivendo e porque não dizer, também sofrendo. Em outros anos a questão da saúde, do trabalho, da fome, dos jovens, dentre outros foram abordados e com toda certeza resultados concretos puderam ser assistidos. Neste ano, a Campanha da Fraternidade será ecumênica e trará como tema: “Casa Comum, nossa responsabilidade”. O lema bíblico é “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”. (Am 5.24)
O principal objetivo será chamar atenção para a questão do direito ao saneamento básico para todas as pessoas, buscando fortalecer o empenho, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro da Casa Comum, ou seja, do planeta Terra. É interessante a igreja se envolver nesta questão, haja vista tratar-se do seu povo sofredor, aquele que vai na igreja, mas sofre no seu cotidiano. Além da reflexão quaresmal, o povo cristão deve procurar também soluções para estes problemas, chamando a atenção dos governantes bem como mobilizando toda a sociedade para a causa.
O tema vem de encontro com o ano jubilar da misericórdia, instituída pelo papa Francisco. A partir dai tem-se a intenção de intensificar a reflexão e proporcionar ainda mais a procura pela fé e o resgate dos assuntos divinos aqui na terra. Assim nos diz o sumo pontífice: “Na Bula de proclamação do Jubileu, fiz o convite para que «a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus». Com o apelo à escuta da Palavra de Deus e à iniciativa «24 horas para o Senhor», quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente experiência de tal anúncio. Por isso, no tempo da Quaresma, enviarei os Missionários da Misericórdia a fim de serem, para todos, um sinal concreto da proximidade e do perdão de Deus”.
Bacana também a campanha se estender para outras igrejas e continentes. Ela será ecumênica com a participação do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) e assumida pelas igrejas-membro: Católica Apostólica Romana, Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Episcopal Anglicana do Brasil, Presbiteriana Unida do Brasil e Sírian Ortodoxa de Antioquia. Além dessas igrejas, estão integradas à Campanha a Aliança de Batistas do Brasil, Visão Mundial e Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP) e terá dimensão internacional, pois será realizada em parceria com a Misereor – entidade da Igreja Católica na Alemanha que trabalha na cooperação para o desenvolvimento na Ásia, África e América Latina.
Era este o grande sonho do papa João Paulo II e agora com o apoio e força total do papa Francisco. É tão bom ver os cristãos cada vez mais unidos! Era este o desejo do próprio Jesus, embora sem muito sucesso na sua época. Quem sabe um dia a divisão entre as igrejas possa acabar e acontecer um estreitamento para que os laços de amizade e propósito possam se intensificar objetivando cada vez mais a salvação coletiva e a resolução de todos os problemas do mundo.
Voltando à problemática que inspirou a CNBB a trabalhar este assunto, O Brasil é um dos países com o índice mais alto de pessoas que não possuem banheiro com quase 7,2 milhões de habitantes. Cerca de 35 milhões de pessoas não contam com água tratada em casa e quase 100 milhões estão excluídas do serviço de coleta de esgotos, como aponta publicação, de 2015, do Instituto Trata Brasil. Ainda de acordo com o Trata Brasil, a cada 100 litros de água coletados e tratados, em média, apenas 67 litros são consumidos. Contudo, 37% da água no Brasil é perdida, seja com vazamentos, roubos e ligações clandestinas, falta de medição ou medições incorretas no consumo de água, resultando no prejuízo de R$ 8 bilhões. A soma do volume de água perdida por ano nos sistemas de distribuição das cidades daria para encher seis sistemas Cantareira. Eis o porquê de se falar desse assunto, uma vez que afeta a saúde pública, a dignidade humana, a sustentabilidade do planeta e, também, a economia.
Bom, há muita coisa a ser refletida. Que esta quaresma seja transformadora! Além de rezar por estes necessitados, tomara que a sociedade se mobilize e crie meios de resolver todos estes tópicos que inspiraram no tema.
Assim, melhor encerrar com a fala do papa Francisco na sua encíclica: “Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão! Pedimo-lo pela intercessão materna da Virgem Maria, a primeira que, diante da grandeza da misericórdia divina que Lhe foi concedida gratuitamente, reconheceu a sua pequenez (cf. Lc 1, 48), confessando-Se a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1, 38)”.

Crônica de Elias Daniel de Oliveira (07/02/2016)

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