Exergando a vida pelos sentidos

A deficiência visual é uma realidade nada agradável por que passa muita gente. Alguns nunca enxergaram outros a adquiriram no decorrer da vida. Atualmente, existem diversas instituições para ajudar pessoas cegas a aprenderem como elas podem viver de forma ativa mesmo sem conseguir enxergar. A data que lembra esta deficiência é no dia 13 de dezembro e um dos principais objetivos é mostrar a todos que não há necessidade de ter pena destas pessoas, mas acolhê-las com carinho  e por outro lado, se precaver para não se tornar também mais um.

Já foi dito em outras crônicas que “os olhos são a janela da alma!”. Por intermédio deles se enxerga o mundo, aperfeiçoa a aparência e revela os sentimentos. Não pensem que os cegos são privados de todos estes benefícios, até mesmo porque, Deus na sua infinita bondade, aprimorou ainda mais os demais sentidos para suprir esta deficiência. A diferença é que não podem ver as flores, mas sentem o seu perfume, nem as pessoas, mas compartilham a aura, não podem ver um monte de coisas, mas os seus olfatos, paladares, tatos, enfim, todos os seus sentidos trabalham com uma qualidade que as demais pessoas não possuem.

O dia do Cego foi criado em 1961 pelo presidente Jânio Quadros e marcou um importante passo para a diminuição dos preconceitos que rondam os portadores de deficiência visual e tem como objetivo diminuir a discriminação e aumentar a integração dos deficientes visuais. Estima-se que existam no Brasil mais de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, sendo que a maioria possui baixa visão. Entre os cegos, os motivos principais para tal problema são doenças como catarata, glaucoma e retinopatia diabética. Portadores de doenças como miopia, astigmatismo e hipermetropia não são considerados deficientes visuais.

Para sentir o drama dos deficientes visuais, faça uma experiência: Tente vendar os olhos e ficar por um bom tempo sem enxergar nada. Não vale entrar em desespero, mas esforce-se o máximo para fazer o que você faz com os olhos abertos. Tente andar pela casa, rua, escrever, ir ao banheiro, sentir a presença das pessoas, comer, beber, ouvir as vozes, enfim, tentar ser você mesmo, só que sem enxergar. Você verá que, como dizia Clarice Lispector, “A pior cegueira é a dos que não sabem que estão cegos”.

Um dito popular já dizia: “O pior cego é aquele que não quer ver”. A fundamentação deste provérbio vem da ideia de que os cegos não estão isolados do mundo e por sua vez diferentes das outras pessoas. Os piores cegos são aqueles que têm dois lindos olhos e, no entanto não enxergam a beleza da vida, não se intimidam com alguém necessitado, não conseguem sequer enxergar a ponta do seu nariz, literalmente falando. Enfim, o pior cego é aquele que não valoriza a sua visão, ou melhor, não sabe usar os seus olhos.

Esta expressão popular nasceu de uma história ocorrida no século XVII na França. Um aldeão de nome Argel foi a primeira pessoa a receber um transplante de córnea, num extraordinário sucesso da medicina da época. Ao enxergar, ele se tomou de um estado de horror com o mundo que passou a conhecer, bem diferente do que imaginava quando vivia na escuridão da cegueira. Solicitou então ao cirurgião que o operou a extrair-lhe os olhos, preferia voltar a ser cego. Com a recusa do médico apelou para os tribunais de Paris e do Vaticano e teve ganho de causa. Passou então a ser conhecido como “o cego que não quis ver”.

Acompanhe o que dizia Antonildo Oliveira, “Três deficiências, piores que a morte. A inveja, cegueira do mundo, a ganância, surdez dos tolos e a fofoca a mudez dos imbecis”.

O saudoso escritor português Saramago, na primeira frase do seu livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, dizia: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Uma frase judaica assim colabora com o nosso tema: “Nenhum médico é capaz de curar a cegueira da mente”.

Mudando um pouco do assunto sem sair dele, vamos falar também do transplante de órgãos, aqui no caso, as córneas. Aproximadamente 25 mil pessoas estão na fila de espera aguardando uma doação. Os Bancos de Olhos são instituições responsáveis pela retirada, transporte, avaliação, classificação, preservação, armazenamento e disponibilização dos tecidos oculares doados (ou seja, responsáveis por todas as etapas de processamento dos tecidos oculares doados). Somente os Bancos de Olhos estão preparados para realizar o necessário controle de qualidade dos tecidos oculares doados que serão distribuídos para transplante. O ideal é que os tecidos oculares doados sejam retirados até 06 (seis) horas após o falecimento. Por isso, o Banco de Olhos deve ser avisado rapidamente. Mas, vários fatores podem contribuir para que este prazo possa ser maior (em alguns casos, pode ser de até 24 horas).

Os fatores que dificultam as doações são: o desespero da família com a perda do ente querido e logicamente sem condições de pensar nesta possibilidade, outra a cabeça dura de muita gente que acha que doar qualquer órgão da pessoa pode deixá-la deficiente no dia da ressurreição dos mortos ou mesmo a ideia de que o órgão doado possa ir para os olhos de pessoas protegidas. Seja lá o que for, se a pessoa morreu e as suas córneas podem fazer alguém enxergar, para que ir junto dentro do caixão?

Para encerrar, fica a lição: os deficientes visuais são pessoas extremamente iguais a qualquer pessoa. Pode até lhes faltar o prazer da visão, mas com toda certeza enxergam melhor que muitos cegos olhudos por ai que não valorizam a vida como deviam.

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