Anjos do entretenimento

Ao comemorar o dia do radialista, voltamos a atenção a este personagem enigmático que provoca os sentimentos das pessoas sem ser visto e desperta a curiosidade dos seus ouvintes como se fosse um anjo do entretenimento.

Trata-se de uma profissão fascinante. Não é assim tão rentável, mesmo os famosos não se banham em dinheiro como os jogadores de futebol, atores ou cantores, mas sentem-se realizados com o seu gesto de “cutucar no coração das pessoas”. Nas rádios comunitárias intensificam-se ainda mais a vocação, isto porque os locutores são voluntários e, além da sua voz, a sua principal ferramenta é o coração que produz a emoção.

A rádio Itatiaia em Belo Horizonte possuía um locutor que em todas as tardes contagiava os seus ouvintes com o seu carisma. Era impressionante como fazia um programa tão interativo. Detentor de uma voz firme com um timbre bom de ouvir, lançava todos os dias um tema e as pessoas ligavam, participava e ajudava a fazer o programa. Com o seu jeito agradável, tratava bem a todos e conversava com estranhos como se fossem seus amigos íntimos sem nunca lhes contrariar nas opiniões. Se tocasse duas ou três músicas era muito, durante todo o programa dava notícias, informava, dialogava e possuía uma audiência incrível. Fui muito longe para conseguir um exemplo, mesmo sabendo que perto de nós muitos locutores também conseguem fazer a diferença.

Um fator muito interessante no rádio é que os ouvintes trabalham muito com a imaginação. Não tendo acesso a imagens, escutam os anúncios, a animação dos apresentadores e se emocionam sem, contudo deixar os seus afazeres. Antigamente, quando ainda não existia a popularização da televisão, as novelas eram transmitidas pelo rádio. Quem escutava vivia a mesma emoção de se ler um livro, não via, mas sentia as cenas.

É necessário possuir dom para ser radialista. Ler bem ou ter uma voz vibrante não significa que possa falar no rádio. Mesmo que a programação seja carregada de formalidades, o locutor tem que saber se comunicar. Normalmente age como se fosse um ator, onde consegue perfeitamente ler um texto como se estivesse conversando informalmente. Do outro lado não faz ideia quem está ouvindo, mas sabe que a pessoa está interessada numa companhia, num bate papo, se informar, entreter, se emocionar ou simplesmente ouvir uma música que lhe toque o coração.

O ouvinte tem prazer em ouvir o próprio nome na voz do locutor. Mesmo sem conhecer quem está falando, parece possuir uma amizade de longas datas, com uma intimidade que lhe faz bem. Hoje com a utilização da internet, a rádio chega a lugares inimagináveis. São muitos bonsucessenses que se sentem em casa ao ouvir a programação da sua cidade que ficou distante, mas não saiu do seu coração. Diante de uma boa locução, até mesmo pessoas desconhecidas que moram muito longe se tornam ouvintes fiéis.

Ao dizer que o radialista precisa ter dom pra coisa, direcionamos a atenção para os ouvintes que dialogam com o rádio. São pessoas solitárias, acamadas, no seu trabalho, carro ou qualquer um que, não tendo com quem conversar, puxa o maior papo com o locutor enquanto faz o seu programa. Parece hilário, mas é exatamente esta realidade que não deixa apagar nunca a popularidade do rádio.

Grandes nomes do passado como Gil Gomes, Zé Bettio, Eli Correia, Barros de Alencar dentre outros, emocionavam as pessoas com a sua modalidade de comunicação que mais parecia um teatro, mas fazia com que os ouvintes embarcassem nas suas histórias e proporcionasse uma mudança nas suas vidas.

O saudoso Chacrinha, conhecido como “velho guerreiro”, possuía um bordão que dizia: “QUEM NÃO SE COMUNICA SE INSTRUMBICA!”. O radialista utiliza a ferramenta da comunicação para entrar em todos os lares, carros, trabalhos, fones de ouvido, celulares, dentre outros para impressionar o ouvinte com aquilo que deseja anunciar. Se nalgum dia não estiver de bem com a vida ou com algum problema pessoal que lhe prejudique a espontaneidade, com toda certeza o ouvinte notará e ficará triste junto. É incrível como isto acontece! Já vi casos de pessoas me abordando na rua e questionando ausências, pouca fala rouquidão e diversas situações que me fizeram mudar a maneira de apresentar o programa.

O verdadeiro dia do radialista é sete de novembro. A mudança deste 21 de setembro pra nova data, foi para homenagear o músico e locutor Ary Barroso. A mudança foi imposta por lei federal em 2006, assim a categoria comemora as duas datas.

Para encerrar, vamos considerar que o rádio e a boa apresentação do radialista contagiam até mesmo quem menos se espera. Veja o que disse a atriz americana Marilyn Monroe: “Não é verdade que eu não tinha nada, eu tinha sim, tinha sempre o rádio ligado”.

Deixe uma resposta