A sabedoria do João de Barro

Enquanto o homem continua se considerando o ser superior em relação aos animais e à natureza, percebe que não é tão poderoso assim quando assiste a cenas de sabedoria animal baseada no instinto sem perder o seu lado sábio. Praticamente todos têm um ou mais pontos de inteligência a que o homem precisa se inspirar e para optar por um vamos apoiar a nossa reflexão de hoje em passarinho que não tem lá tanta beleza e nem canta como um colibri ou canarinho, mas é considerado um verdadeiro engenheiro, estamos falando do Sr. João de Barro.

É conhecido também como barreiro, João-Barreiro no Rio Grande Sul, Maria-barreira na Bahia, forneiro, pedreiro, oleiro, hornero  na Argentina e amassa-barro. A fêmea é conhecida como “joaninha-de-barro”, “maria-de-barro” ou “sabiazinho” em certas regiões. O seu ninho tem o formato de um forno. É tido como passarinho trabalhador e inteligente. Seu canto parece uma gargalhada (no Sul dizem que, quando ele canta, é sinal de bom tempo) e também dizem que ele faz o ninho na direção contrária a da chuva sendo amigo de todos como forma de luta para proteger o seu ninho.

Para mostrar que tamanho não é documento, mede 18 a 20 centímetros de comprimento e pesa 49 gramas, no entanto é de uma inteligência incomparável. É uma das aves de mais fácil observação nos locais onde ocorre, pois além de não se afastar muito de seu território não é nem um pouco arisca, deixando o observador chegar a poucos metros de distância. Quando não está empoleirada desce ao solo, onde passa boa parte de seu tempo caminhando de modo bem típico, alternando pequenas corridas com intervalos nos quais anda mais devagar.

Sobre o comentário que o cantor Sérgio Reis faz na sua música do mesmo nome de que este passarinho fecha a porta da casinha deixando lá dentro a sua fêmea quando é traído, tal comportamento nunca foi registrado cientificamente. Mas, para abrilhantar a música deixando-a bastante emocionante, os seus autores criaram esta ideia depois de acharem alguns ninhos com ossadas de passarinhos dentro das casinhas, mas na verdade isto acontece devido ao calor e falta de ventilação no quartinho de dentro.

E por que o nome JOÃO DE BARRO? Bom, quanto ao barro não precisamos de muitas explicações, mas o prenome é graças a uma lenda  que justifica a música que citamos, contada da seguinte forma: Diz-se que havia um homem chamado João. Ele era muito bondoso e fazia casas com barro e capim, cuidando sempre para fazê-las na posição correta (viradas para o nascer do Sol). Era tão bondoso que não cobrava nada para construir as casas. Depois de muitos e muitos anos, Deus achou melhor ele descansar ao seu lado. Todos entraram em prantos por causa da morte de João. Para consolá-los, Deus criou o “João-de-barro”, fazendo sua casa de barro e capim, sempre virada para o nascer do Sol. Um dia, conta-se, brigou com Tapera (andorinha), que chegou a dominá-lo e despejou-o do ninho ainda em construção. A fêmea ajudou na construção do ninho, mas parece não ter sido constante, abandonando o macho. O joão-de-barro é fiel até o fim e, por isso, quando percebeu que a esposa mudou de amor, tampou a abertura da casa, fechando-a para sempre.

De fato, a natureza é sábia. Este construtor chega a levantar até prédios, isto mesmo, uma casinha em cima da outra e consegue se preservar de predadores, sol e chuva, além de construir num local que geralmente tem uma vista maravilhosa.

O pesquisador Demis Bucci, diz que a construção do ninho demora entre 18 dias e um mês, dependendo da existência de chuvas e, portanto, de barro em abundância. O ninho pesa em torno de 4 quilos e às vezes ocorre a construção de vários deles, sobrepostos (até 11), em anos consecutivos. Põe de 3 a 4 ovos, a partir de setembro, e a incubação dura de 14 a 18 dias. O casal chega sempre em posições diferente da árvore, ora por cima, ora por trás, esquerda ou direita. O casal, além de revezar na construção, em alguns momentos divide tarefas, sendo que um fica no ninho ajeitando o barro e o outro traz o material.

Nas nossas crônicas de temas semelhantes sempre deixamos claro que o homem sempre tem muito que aprender com os animais e com a natureza. Assuntos como estes tendem a mostrar que Deus teve um carinho especial na criação com os outros seres e não somente com o homem. Ouso até dizer que Deus muitas vezes fica muito mais alegre com os animais e nem tanto com algum homes, isto porque os animais são bem mais fiéis às coisas divinas comparativamente ao homem.

Encerro me inspirando no escritor João Vitor Rocha quando dizia: “Feliz é o João de Barro que se contenta com pouco, pouco como sua casa de um só cômodo. Infelizes somos nós que choramos por tudo e tendo tudo, tudo como o dom da vida!”.

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