A morte como valorização da Vida

A celebração dos mortos sugere várias reflexões sobre a vida. É sabido que viver subtende-se morrer e isto assusta as pessoas. Na verdade o que alimenta o tema é a questão cultural. Mesmo que todos compreendam esta verdade, não é nada fácil aceitar a ideia de que nunca mais verão o ente ou amigo falecido. Esta realidade muda com alguns povos que já encaram de outra forma e aceita a morte com maior naturalidade.

Questionável também é a aceleração da morte. Alguns nomes são atribuídos a esta prática, como EUTANÁSIA, SUICIDIO, ASSASSINATO, dentre outros. As religiões condenam este atalho, mas as discussões não cessam levando em consideração a liberdade de viver e morrer.

Um filme, baseado em fatos reais, intitulado MAR ADENTRO, narra a história do espanhol Ramón Sandro que após um acidente ao mergulhar ficou tetraplégico por 29 anos. Sentindo-se inútil e sem conseguir fazer nada a não ser movimentar a cabeça, brigou na justiça o direito de se submeter à eutanásia. Por causa da sua dependência generalizada, sentia que não conseguia sequer suicidar. Na sua argumentação, afirmava que não fazia mais sentido viver diante das suas necessidades físicas e que o seu problema era irreversível. Dizia também que estava lúcido, não estava sobre efeito de depressão e muito menos sofria pressão externa. Era uma vontade normal, comentava que todas as pessoas chegam ao fim um dia e que o momento dele havia chegado, só faltava concluir. A sua tentativa foi em vão. Religiosos e a família foram contra a solução extrema, mas Ramón foi ajudado por uma amiga a consumar o que ele próprio chamava de morte digna.

É muito difícil jogar pedras também no suicida. Uma antiga tradição japonesa colocava os ex-suicidas como classe desprezível e indigna de viver no meio dos outros. É bom levar em consideração que a cultura daquele povo já aceita melhor o assunto morte e, infelizmente, o suicídio é uma realidade deles. O grande vilão desta modalidade de encerramento da vida é a depressão, ela é que tem que ser combatida. Uma vez sanada, o desejo de viver passa a imperar.

Outro assunto que muito tem que ser trabalhado é a respeito da doação de órgãos no pós-morte. As famílias carregam um paradigma de que os seus entes continuarão vivos nos corpos de quem recebeu o órgão doado e esta atitude dificulta a salvação de pessoas necessitadas.

Diria que pode até ser aceitável a morte de quem já está se agonizando em uma cama ou mesmo sofrendo a pressão da idade, mas a morte súbita é bastante dolorosa. A tentativa de superação pelas causas-mortis não se aplica ao acidentado, ao infarto fulminante, à bala perdida ou qualquer outro tipo não premeditado. Olhando por esta ótica, a dor se intensifica e nem as sociedades que já aprenderam a encarar a morte como algo normal não conseguiria demonstrar total naturalidade.

O saudoso Raul Seixas brinca com o tema na música “Canto para a minha morte”. Assim expressa o cantor: “A morte, surda, caminha ao meu lado e eu não sei em que esquina ela vai me beijar”. Depois de solicitar que ela venha vestida de cetim e com boa aparência, Raul conclui os seus pensamentos dizendo: “Vem, mas demore a chegar, eu te detesto e amo morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida”.

O filósofo Epicuro lamenta que a maioria das pessoas fuja da morte como se fosse o maior dos males, mas para ele não há vantagem alguma em viver eternamente.

O sociólogo Geoffrey Gorer escreveu um estudo com um titulo provocativo de “A pornografia da morte”, para se referir a ela como um tabu. Segundo o autor, a “obscenidade” em falar da morte é mais grave com doentes terminais. São comuns os parentes, às vezes com a cumplicidade de médicos, esconderem do paciente sua doença letal e o fim próximo. A tentativa de ocultar a morte iminente talvez explique o requinte de funerárias norte-americanas, que “tomam conta do morto” e o preparam para o velório com serviços de maquiagem, fotos dele jovem e até gravações de sua voz.

Sendo a morte inevitável, mais do que chorar por aqueles que se foram, o melhor que se pode fazer é curtir cada momento da vida. Ninguém sabe quando será a hora derradeira, pode acontecer daqui a cem anos como no próximo segundo. Renato Russo já dizia: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã!”. Cada instante vivido é um passo em direção à morte. Desta forma não é nada interessante deixar pra fazer amanhã o que se pode fazer hoje, até mesmo porque, amanhã poderá ser tarde demais.

Jean-Paul Sartre já dizia: “Por mim, creio que estamos mortos há muito tempo: morremos no exato momento em que deixamos de ser úteis”. Mário Quintana também colabora com o nosso tema: “Por que será que a gente vive chorando os amigos mortos e não aguenta os que continuam vivos?”. Bacana também os dizeres de Claude Helvetius: “A inveja honra os mortos para insultar os vivos”. Bastante sábio também o pensamento de Alvo Dumbledore: “Não tenha pena dos mortos. Tenha pena dos vivos, e acima de tudo, daqueles que vivem sem amor”. E a conclusão fica por conta de Amado Nervo: “Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós”.

Tenham então todos um bom dia dos vivos enquanto celebram os mortos. Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro”, assim já dizia o filósofo Confúcio.

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