A HANSENÍASE E A SUA HISTÓRIA

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Crônica de Elias Daniel de Oliveira (10/01/2016)

O corpo do ser humano é de fato algo descartável. Inúmeras doenças surgem todos os anos acarretando uma preocupação a mais nas pessoas, muitas nascem a partir da tentativa de cura de algum mal e ao utilizar uma cobaia, acaba infectando-a e proporcionando o surgimento de mais uma epidemia. A grande quantidade de produtos químicos que deveria dar maior comodidade ao homem acaba virando vilão e fazendo aparecer males novos. Ainda existem aquelas que já dizimaram muita gente no passado e como a medicina não era tão avançada, os especialistas da época jogavam a culpa nas bruxarias ou talvez na religiosidade, onde alegavam ser penalidade dos céus ao afastamento das pessoas das coisas de Deus. A Lepra, que ganhou o nome de Hanseníase e assolou a população com maior intensidade no passado norteará a crônica de hoje.
Desde a Antiguidade a lepra foi tratada como sinal de impureza ou pecado. Durante séculos, a regra foi uma só: discriminar os doentes e privá-los do convívio social. Esta realidade existiu até pouco tempo com leprosáriosescondidos em colônias distantes da cidade e quando algum aparecia pelas ruas pedindo ajuda, todo mundo corria dele. Os cientistas preferiram chamar a doença de hanseníase por causa do preconceito com o antigo leproso como algo abominável. Veja o que dizia o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa ao designar, no sentido figurativo, “leproso” é aquele cujo convívio é maléfico ou extremamente desagradável, uma pessoa perversa, ruim, que provoca repulsa, nojo. Essa definição é antiga, tal como a doença. A hanseníase leva muito tempo até se manifestar, anos às vezes. Afeta principalmente a pele e os nervos periféricos (isto é, aqueles que não estão no crânio ou dentro da coluna vertebral). Como a medicina antiga não conseguia trabalhar o assunto, a própria sociedade criava os seus estereótipos e agia de maneira preconceituosa com estes doentes.
No Novo Testamento a lepra também é mencionada, mas com um sentido diferente. Jesus tem compaixão pelas pessoas e passa a ajudá-las, bem como curá-las. Dois episódios são muito ilustrativos; o primeiro aparece em Mateus (capítulo 8, versículos 1 a 4). “Um leproso veio a Ele e ajoelhou-se dizendo: ‘Senhor, se quiseres, podes me tornar limpo’. Jesus estendeu a mão e tocou-o: ‘Eu o quero, fica limpo’. Imediatamente a lepra desapareceu. Então Jesus disse a ele: ‘Não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote’.” Já em Lucas (capítulo 17, versículos 11 a 19) aparece uma outra passagem: “A caminho de Jerusalém Jesus atravessava a região entre a Galiléia e a Samaria. Entrando numa vila, dez leprosos apareceram. Mantendo a distância, eles disseram: ‘Jesus, Mestre, tem piedade de nós!’ Quando Ele os viu, disse: ‘Ide e mostrai-vos para os sacerdotes.’ À medida que se afastavam eles foram ficando curados”.
Muitos santos como São Francisco de Assis, Madre Tereza de Calcutá, dentre outros não temiam os leprosos. Viam neles seres humanos que não tiveram a mesma sorte que as outras pessoas. Mesmo Jesus Cristo possuindo este cuidado com estes doentes, a Igreja em diversos concílios adotaram o critério de exclusão aos leprosos como forma de não deixá-los contaminar os outros. Tudo isto aconteceu diante da análise de especialistas da época que chegaram à conclusão que de fato a contaminação era uma realidade. Assim, depois do diagnóstico, passava-se ao processo de exclusão social, que se acompanhava de um ritual impressionante. O leproso era vestido com uma mortalha, rezava-se uma missa fúnebre de corpo presente e, acompanhado de padres e de familiares, ele era então conduzido ao leprosário ou ao lugar onde ia habitar, fora dos limites da comunidade.
Mudar o nome de Lepra para Hanseníase foi uma homenagem ao cientista norueguês Armauer Hansen que no ano de 1873 identificou o micróbio causador da doença. Ficava claro, finalmente, que se tratava de um fenômeno natural e não era o resultado de pecado ou maldição. Ao contrário do que se pensava, a doença é muito pouco contagiosa. Às vezes só é adquirida depois de anos de contato com enfermos – o micróbio também existe em animais (nos tatus).
Percebe-se que houve uma diminuição considerável de infectados. Hoje quase não se vêem leprosos como antigamente. Mas, não é bem assim. Mais de um milhão de pessoas no mundo inteiro são portadores da hanseníase. A doença é mais comum na Ásia (especialmente na Índia e no Nepal), na África, na América Latina e nas ilhas do Pacífico. No Brasil a doença existe desde os tempos coloniais, trazida pelos colonizadores portugueses e, depois, pelos escravos africanos. O Brasil está em quinto lugar na proporção de doentes de hanseníase sobre a população – atrás apenas de Madagascar, Moçambique, República Democrática do Congo e Nepal. A distribuição dos casos varia no território nacional, com maior prevalência na região Norte e no Mato Grosso. A incidência de casos é menor no Sul.
E como saber da possibilidade de estar infectado? É só observar as seguintes modificações no corpo: Na pele aparecem lesões características. Quando as marcas são muito salientes e aparecem no rosto, constituem a chamada “face leonina”. Já o comprometimento dos nervos leva à anestesia: o portador de lepra muitas vezes não sente picadas ou queimaduras e pode até sofrer acidentes por causa disso. Também podem ocorrer atrofia muscular e deformidades. O tratamento é ambulatorial. Administra-se uma associação de medicamentos, a poliquimioterapia conforme a classificação operacional.
Certa vez alguém Madre Tereza de Calcutá disse o seguinte a uma pessoa que ficou assustada em vê-la cuidar de um leproso: “O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho em um leproso”.

Crônica de Elias Daniel de Oliveira (10/01/2016)

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