A CELEBRAÇÃO DOS MORTOS

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Crônica de Elias Daniel de Oliveira (06/11/2016)

Foi celebrado nesta semana O DIA DE FINADOS. Levando em consideração a importância do tema, ele não poderia passar despercebido. Há uma interpretação muito mística e misteriosa quando se fala dos mortos. É claro que aquela velha indagação fica no ar sobre qual o sentido da vida e se de fato tudo termina naquele momento em que o coração para de funcionar. Muitos especialistas e segmentos filosóficos tentam desvendar o assunto e pegando carona nesta temática, o DIA DE FINADOS norteará a reflexão de hoje.

É comum ouvir que a morte é a única certeza que se tem na vida. Analisando por esta ótica, entra em cena o EXISTENCIALISMO, uma disciplina da filosofia que estuda a existência humana. Para os existencialistas, se a morte é o fim de tudo, então do que valeu viver? Eles ainda acrescentam: Qual então será o sentido da vida? Diga-se de passagem, que a vida inicia no exato momento em que o espermatozoide penetra no óvulo e encerra quando o coração para de funcionar. A existência humana ganha vida quando o corpo passa a ter um espirito, uma alma, ou, na concepção de Freud, uma mente em ação. Percebe-se então que este “segundo eu” é muito poderoso e não morreria assim tão fácil com a morte do corpo, embora haja uma dependência destas duas partes.
Na verdade é possível dizer que o corpo físico é descartável. É mais ou menos parecido com um carro, enquanto tá novo é uma beleza, mas a partir de sua utilização, acontece o desgaste natural em direção à ruina total. Mas, quanto ao ser humano, como fica a questão do espírito? Há quem diga que morreu o corpo, morre também o espírito, mas existem estudiosos que afirmam o contrário. Segundo eles, quem morre é o corpo, o espirito passa para uma nova dimensão. A Bíblia utiliza a expressão céu e inferno para acolher esta alma, deixando claro que todas as garantias são obtidas na terra ainda em vida. É mais ou menos o seguinte, a sua provável salvação eterna vai depender da maneira como você viveu aqui na terra. É claro que muitos santos, como Santa Tereza D’Avila apresentam ainda um lugar denominado PURGATÓRIO onde a pessoa possa se redimir mediante as orações dos seus entes ainda vivos. Na verdade, Deus não quer perder nenhum dos seus filhos.
Parece tudo muito natural, inclusive a morte. Mas, por que ela causa tanto sofrimento? Quem ganha a total culpa deste sofrimento é a CULTURA. Aquele sentimento de perda e despedida é o que mais massacra a mente humana. Principalmente daqueles que têm morte súbita. Em alguns lugares tentaram amenizar a situação como nos países do oriente, onde fazem uma festa pelo falecido como se comemorassem a sua promoção para uma nova vida e o encerramento desta. Também no Egito Antigo em que faziam uma espécie de curso de morte para preparar as pessoas para não sofrerem tanto, ou mesmo em alguns pontos da Bahia em que mantém o velho hábito de “beber o defunto”, ou seja, tomam uma cachaçada e dançam muito porque o morto não gostava de tristeza. Mas no fundo, quando a ficha cai, fica aquele aperto no coração que aquela pessoa não voltará nunca mais.
E a concepção espírita de que o espírito possa se comunicar com as pessoas, é possível? Mais uma vez convém analisar o que dizia Santa Tereza D’Avila. Segundo ela quando o corpo está no Purgatório, Deus lhe dá a oportunidade de vir a terra e pedir às pessoas de bem que rezem por elas. É muito complicado aceitar outras doutrinas que alegam que é extremamente normal o corpo que ainda não achou o seu caminho ficar bisbilhotando a vida dos seus parentes. A possibilidade de ouvir vozes, ter sensações e querer acreditar que a pessoa falecida está por perto não é nada mais do que uma reação da mente que está atordoada com aquela perda.
Uma frase bem legal de um pensador por nome Alvo Dumbledore, que foi utilizada pelo Harry Potter foi: “Não tenha pena dos mortos. Tenha pena dos vivos, e acima de tudo, daqueles que vivem sem amor”. É claro que viver é muito bom, embora haja quem diga que morrer não deve ser tão ruim assim, veja um pensamento maluco de Arthur Schopenhauer: “Vá bater nos túmulos e perguntar aos mortos se querem ressuscitar: eles sacudirão a cabeça num movimento de recusa”.
Esta ideia de celebrar o dia de finados vem do século XI, por meio dos papas Silvestre II, João XVIII e Leão IX. Já a data (dia 2 de novembro) foi estabelecida mais tarde, no século XIII. No início da história da Igreja, os cristãos rejeitavam totalmente a ideia de relacionamento com mortos. Nessa época, o pensamento predominante era o de que as almas simplesmente ficariam adormecidas até o momento do julgamento final. No entanto, ao mesmo tempo em que o cristianismo era difundido pela Europa, acabava anexando elementos de outras culturas. Há ainda a crença de que a tradição do Dia de Finados tenha surgido a partir dos celtas, povos que acreditavam na vida após a morte e separavam uma data anual para homenagear e evocar os mortos. Assim, da mesma forma que faziam certas sociedades da antiguidade, os cristãos passaram a rezar pelas almas dos falecidos, acreditando que estes necessitariam de orações, já que estavam passando pelo processo de purificação conhecido como Purgatório.
Para encerrar, convém utilizar as palavras de Érico Veríssimo quando dizia: “Na minha opinião, o que importa não é homenagear os mortos, levando-lhes flores às sepulturas, e sim, tratá-los bem, com todo amor possível, enquanto estão vivos”.

Crônica de Elias Daniel de Oliveira (06/11/2016)

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